Geada atinge fortemente regiões do Brasil e compromete safra de 2022


A expectativa no setor cafeeiro para este ano era de muito otimismo. Alguns especialistas acreditavam que a safra de 2020/2021 seria repetida, mas essa realidade mudou devido às fortes geadas do mês de julho, que atingiram muitas lavouras de café em regiões dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Além desses, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina também teriam sofrido consequências.


A região da Mogiana, no interior paulista, foi a mais impactada, o mesmo ocorrendo no norte do Paraná. Em Minas, as lavouras mais atingidas foram as do sul do estado, do Cerrado e do Campo das Vertentes. Foram afetados 173,6 mil hectares de café no Sul de Minas, no Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba, trazendo prejuízos para 9,5 mil produtores, que tiveram suas plantações atingidas pela onda de frio, conforme dados da Emater-MG (Empresa de Assistência Técnica de Extensão Rural de Minas Gerais).


Em Patrocínio, no Alto Paranaíba, a estimativa de perda é de 30% da área de cafeicultura, segundo a Associação dos Cafeicultores da Região. Segundo Gladyston Carvalho, pesquisador da EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), o estado é responsável por cerca de 70% do volume nacional de produção do café arábica do Brasil, e, mesmo que o fenômeno seja conhecido por muitos produtores rurais, que já tiveram, de alguma forma, suas plantações afetadas, há muito tempo não acontecia de forma tão agressiva no país. “A última vez em que houve uma geada com a proporção de danos causados pela atual foi em 1994. Por ter passado tanto tempo sem acontecer novamente, muitos produtores perderam o medo, e plantaram em locais não indicados”, explica.


TIPOS DE GEADA

A geada é um fenômeno atmosférico natural, que ocorre quando a temperatura do ar de uma determinada região cai abaixo do ponto de congelamento da água, ou seja, 0 °C. Por causa da baixa temperatura, ao cair da noite, o vapor de água existente no ar se transforma em cristais de gelo. Existem três tipos de geada: a primeira é a branca, na qual os cristais de gelo ficam sobre as folhas do cafeeiro e o dano, provavelmente, ocorra somente nos tecidos de fora da planta; já a geada negra é a mais severa, pois congela a água interna da planta, fazendo com que o volume dentro da parede celular aumente, rompendo essas paredes; a última é a geada de canela, que causa mais danos na parte de baixo do pé de café, e ocorre principalmente em lavouras mais novas.


Para a engenheira agrônoma Luiza Macedo, é preciso aguardar um tempo para saber realmente qual foi o dano causado na planta e tomar as medidas certas para a sua recuperação. “A planta possui uma reserva de carboidratos para fazer as brotações de início de ciclo, mas, devido ao período de seca, seu metabolismo fica mais lento, sendo paralisado completamente com as geadas. Então, é preciso esperar que chova para a planta se desenvolver e brotar no local do dano. Mas, a ideia é cortar o menos possível da planta, pois ela precisará de toda reserva para conter os danos da geada”, orienta a especialista.


Por ser uma indústria a céu aberto, assim como outras atividades agrícolas, a cafeicultura enfrenta esse grande desafio imposto pelo fenômeno das geadas, que prejudica o potencial de produção dos cafezais. Por isso, a importância de se conhecer os tipos de geada e quais as áreas de maior probabilidade de ocorrência, além de buscar as medidas para amenizar os danos que podem ser causados nas plantas, e aquelas a serem tomadas caso a lavoura já tenha sido afetada.


PERDAS NA PRÓXIMA SAFRA

Com mais de 50 anos de experiência no setor cafeeiro, o engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Procafé, Jose Braz Matiello, diz que a maior perda será na safra de 2022, mas é provável que uma parte da de 2023 também seja comprometida: “Os programas de financiamento de crédito devem prorrogar os empréstimos dos produtores devido ao comprometimento da safra do próximo ano. Afinal, agora a receita será bem menor pelo fato de a quantidade de café vendido para exportação diminuir consideravelmente.”

De acordo com ele, do ponto de vista social, o reflexo das geadas afeta muito também a mão de obra. “Se não há frutos, não há colheita. Quem plantar ainda neste ano, produzirá

novamente somente em 2024”, completa.

A Emater-MG estimou uma perda de cerca de 19% das áreas de café em Minas Gerais (equivalente a 173,68 mil hectares) por causa das geadas de julho. Foram atingidas 9.540 propriedades, de 170 municípios em Minas Gerais, sendo 78% da região do Sul de Minas.Os outros 22% são do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba.

O Presidente da Emater-MG, Otávio Maia, assegurou que a força-tarefa para emissão dos laudos técnicos gratuitos para agricultores familiares, e que comprovam o impacto da geada nas lavouras, está trabalhando com agilidade para amenizar os impactos que atingiram 9.540 propriedades em 170 municípios do estado de Minas Gerais. Esses laudos são de extrema importância para que os produtores acessem as linhas de crédito e o seguro rural.