Agricultura Familiar move o universo do café


Alto da Serra

Uma prática muito comum nas áreas rurais, e que tem se mostrado forte no quesito “qualidade”, é a agricultura familiar, um modelo de produção agrária desenvolvido por pequenas famílias que trabalham em conjunto na plantação de alimentos.


De acordo com a Lei nº 11.326 de 2006, para ser classificado como agricultura familiar, o estabelecimento deve ser de pequeno porte; ter metade da força de trabalho e gestão exercidas pela família; e a atividade agrícola precisa compor, no mínimo, metade da renda do grupo, embora a maioria dos seus membros já tenham nela sua principal fonte de receita.


O último Censo Agropecuário Brasileiro, realizado em 2017 pelo IBGE, comprova a força e a importância da agricultura familiar para a produção de alimentos no país, tendo em vista que 76,8% dos estabelecimentos agropecuários se enquadram nesse modelo. São 5,073 milhões de unidades rurais, em termos absolutos, que respondem por aproximadamente 70% dos alimentos produzidos no Brasil.


Esse formato de atividade é importante, pois garante que as famílias possam se manter nas zonas rurais, evitando que necessitem migrar para as cidades grandes. Além disso, proporcionam a sua base alimentar dentro das próprias terras.


Outra importante característica da agricultura familiar é a policultura, ou seja, o plantio de diversos tipos de alimentos. Pequenos agricultores procuram plantar diferentes produtos, tanto para melhorar sua renda, quanto para seu próprio consumo. Como as plantações são sazonais, e dependem da época do ano, eles investem em diferentes culturas para aproveitar melhor o solo.


Pico do Boné

CAFEICULTURA

Dentre os principais produtos cultivados, está o café. Muitos cafeicultores no Brasil também são agricultores familiares e levam o aroma e o sabor dos grãos brasileiros para o mundo todo. De acordo com o Governo Federal, a cafeicultura no país ocupa uma área de 2 milhões de hectares. São cerca de 300 mil produtores, a maioria ligada à agricultura familiar. Conversamos com algumas famílias mineiras que nos mostraram como é a rotina e os desafios que envolvem a produção do café e como desenvolvem a policultura em suas terras.


A cafeicultora Cristiene Aparecida Martins produz o Café Pico do Boné, em Araponga, na região das Matas de Minas, e explica sobre o dia a dia dela e de sua família, composta por sua mãe, seis irmãos e uma cunhada: “Durante a época da colheita do café, que acontece entre junho/julho até setembro, nossa rotina é árdua. Acordamos às 5h para preparar o almoço e vamos direto para a lavoura, que é longe da sede. Saímos de casa antes das 7h, levamos marmita, antes das 10h já estamos almoçando e trabalhamos até 16h”.


Ela conta ainda como dividem as tarefas: “Eu e minha irmã Kátia costumamos fazer a triagem da carreira do café; os irmãos trabalham com as máquinas agrárias no solo. Os trabalhos que requerem mais força são deixados para os homens, mas trabalhamos sempre em equilíbrio. De outubro até maio é o intervalo quando vamos capinar e roçar a terra. Agora em novembro, também faremos a adubação do solo”.


Sertãozinho

EXPERIÊNCIAS

Já Edson da Silva, cafeicultor há quase 18 anos e produtor do Sertãozinho Cafés Especiais, em Cristina, região da Mantiqueira de Minas, conta que é ele quem trabalha mais na lavoura, mas que a filha o ajuda nas atividades após a colheita do café. “Cuido mais das lavouras na roça, faço todo o trabalho, desde cuidados do campo até a colheita. Minha enteada está com 15 anos e ajuda no controle de estoque, a empacotar o café, a atender clientes e a fechar pedidos. Minha filha de 12 anos ajuda a mexer os cafés no terreiro depois que chega da escola. Minha esposa é agente de saúde, mas nas horas de folga ajuda a empacotar o café. Meu filho de oito anos vê a gente trabalhando e quer sempre ajudar, entre uma brincadeira e outra. Quer seguir o exemplo do pai. Está no sangue”, conta, orgulhoso. Ele finaliza dizendo que na parte de colheita contrata ou faz mão de obra trocada com o cunhado ou o sogro: “Cada um tem sua lavoura, mas somos unidos e sempre nos ajudamos”.


Outro exemplo interessante vem da Fazenda Alto da Serra, em Manhuaçu. O cafeicultor Fabiano Diniz assumiu, junto a seu pai, a propriedade para mudar alguns processos. “Estamos na quarta geração do café na família. Cultivamos umas 100 mil plantas e o café é a nossa principal fonte de renda. Eu, meu pai e mais dois meeiros, que moram próximos e são como da família, é que cuidamos do manejo, da colheita e de todos os demais processos. No pós-colheita, já temos a participação também da minha mãe e da minha irmã. Meu avô, de 84 anos, de vez em quando ainda se arrisca na seletiva e é um grande orgulho para nós”, conta.


Ele completa dizendo que hoje trabalham apenas com café especial e conseguem manejar bem toda a produção, respeitando os processos passados pelo avô e também o meio ambiente, não usando agrotóxicos e preservando ao máximo as reservas da propriedade.